quinta-feira, 24 de abril de 2008

China: será que não é tão grande quanto se pensava ?

Matéria do Valor Econômico de 03/12/2007, que vale a leitura:

Os americanos que não param de se interrogar sobre quando sua economia será ultrapassada pela China deverão ficar bastante satisfeitos diante de novos números apontando que a economia chinesa pode, na realidade, ser 40% menor do que as estimativa atuais. Mas os novos números, se confirmados, também significarão que a economia mundial vem crescendo um pouco mais lentamente, nos últimos anos, do que reportado oficialmente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o que é menos salutar para todo mundo.

E não é o governo chinês que vem exagerando a dimensão de seu Produto Interno Bruto (PIB), mas sim organizações internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que medem a produção de cada país em termos de paridade de poder de compra (PPP, na sigla em inglês). Se o PIB chinês for convertido em dólares usando taxas de câmbio de mercado, o resultado são US$ 2,7 trilhões no ano passado, apenas 20% do US$ 13,2 trilhões do PIB americano e o quarto maior no mundo. Mas um dólar compra muito mais coisas na China do que nos EUA, porque os preços de muitas mercadorias e de serviços não comercializáveis tendem a ser muito mais baixos em economias pobres. Assim, a conversão do PIB de um país pobre em dólares a taxas de câmbio de mercado subestima a verdadeira dimensão de sua economia.

Em vez disso, muitos economistas preferem converter PIBs em dólares usando a PPP, que leva em conta diferenças de preços entre países. O índice Big Mac compilado pela "The Economist" é uma medida aproximada de PPP. Estimativas muito mais sofisticadas são produzidas pelo Programa de Comparação Internacional, coordenado pelo Banco Mundial, que coleta preços de mais de 800 produtos e serviços em países no mundo inteiro. Numa escala PPP, o Banco Mundial classifica a China como a segunda maior economia no mundo, com um PIB de US$ 10 trilhões no ano passado. Extrapolando seu recente ritmo de crescimento, o PIB chinês poderia ultrapassar o americano já em 2010.

A estimativa do Banco Mundial para a China é amplamente utilizada por economistas. Mas poucos se dão conta de que ela baseia-se em muita adivinhação, pois os levantamentos anteriores de preços internacionais feitos pelo banco não incluíam a China. Em vez disso, os técnicos fizeram extrapolações baseadas em um estudo de preços nos EUA e na China que remonta à década de 80.

O mais recente estudo comparativo de preços feito pelo banco, que deverá ser publicado em meados de dezembro, pela primeira vez inclui efetivamente a China, e as evidências preliminares indicam que o PIB chinês vem sendo superestimado.

Em recente artigo no "Financial Times", Albert Keidel, economista da Carnegie Endowment for International Peace, observa que os números baseados numa escala de PPP, publicados pelo Banco de Desenvolvimento Asiático (BDA) como parte das estatísticas que fornece ao Programa de Comparação Internacional do Banco Mundial, implicam que o PIB da China é 40% menor do que o número divulgado pelo Banco Mundial. Curiosamente, o novo valor é bastante próximo do que o índice Big Mac sempre indicou.

A própria afirmação de Keidel baseia-se em alguma adivinhação. Na realidade, o relatório do BDA não revela a taxa de equivalência, recalculada segundo a PPP, do yuan frente ao dólar, pois o estudo apenas compara preços chineses com os de Hong Kong, e não com preços americanos. Para obter o equivalente em dólares na escala PPP, Keidel assumiu que os preços relativos em Hong Kong e nos EUA não mudaram desde estudos anteriores. Se for assim, resulta que o PIB chinês é, de fato, 40% menor do que antes estimado. O Banco Mundial diz que ainda está discutindo os números finais. Observe, porém, que as estatísticas do BDA implicam que o PIB da Índia é também 40% menor, apesar de a Índia ter participado de levantamentos anteriores de preços internacionais (sugerindo que a PPP de Hong Kong pode, efetivamente, ter se alterado). Assim, é possível que o PIB chinês seja reduzido em menos que 40% quando o Banco Mundial publicar seu relatório final.

Imaginemos por um momento que 40% - o número a que chegou Keidel - esteja correto; nesse caso o PIB chinês, na escala PPP, cai de US$ 10 trilhões para US$ 6 trilhões. Com isso, a China continuaria sendo a segunda maior economia no mundo, mas não ultrapassaria a americana durante ao menos outros dez anos. A Índia, por outro lado, cairia da terceira para a quinta posição na classificação mundial.

A China provavelmente ficaria bastante satisfeita em ver seu PIB revisto para baixo, na expectativa de que os EUA possam parar de "pegar no pé" de uma economia menor e mais pobre.

Mas as PPPs revisadas não modificariam apenas as classificações no ranking internacional. Afetariam ainda o ritmo estimado para o crescimento mundial. Para calcular o crescimento do PIB mundial, as taxas de crescimento de cada país são ponderadas por sua participação na produção mundial. Empregando ponderações na escala PPP, como faz o FMI, a economia mundial cresceu, em média, 5% durante os últimos cinco anos, seu ritmo mais forte desde o início da década de 70. Isso deve-se em larga medida ao fato de as economias emergentes virem crescendo 7,5% ao ano (em comparação com apenas 2,3% para as economias desenvolvidas do G-7), e elas respondem por cerca de metade do PIB mundial. Mas, se as economias chinesa e indiana forem 40% menores do que se achava, o crescimento mundial cairia para 4,5%.

A dificuldade em mensurar a escala de PPP é uma das razões pelas quais alguns economistas preferem comparar as dimensões das economias usando taxas de câmbio de mercado. Afinal de contas, argumentam, o comércio entre países baseia-se em taxas de mercado, e portanto estas representam o melhor termo de comparação. Medido dessa maneira, o crescimento mundial durante os últimos cinco anos foi de ainda mais modestos 3,4%. Longe de ser o ritmo mais rápido em décadas, é mais lento do que na década de 80 (veja gráfico da esquerda).

E então, terá a acelerada expansão mundial sido uma miragem? Um exame mais detido dos números sugere que não. Medidas a taxas de câmbio de mercado, as participações das economias emergentes na produção mundial no ano passado foi inferior à de 1980 (veja gráfico à direita), apesar de virem crescendo mais de duas vezes mais rápido do que as economias ricas. O crescimento de sua participação no consumo mundial de energia, de 43%, em 1980, para 55% em 2006 também confirma que seu peso na economia mundial certamente cresceu.

Os números brutos em dólar são distorcidos por grandes oscilações monetárias. Por exemplo, as desvalorizações promovidas pelas economias do Leste Asiático em 1997-98 exageraram a percepção da queda de sua produção. Expressa em termos de PPP (uma visão mais realista), a participação das economias emergentes na produção mundial cresceu a partir de 1980 - e mesmo que a economia chinesa seja menor do que se acreditava, continua sendo uma fera feroz.

Os dados de PPP podem ser imperfeitos, mas proporcionam uma visão melhor da dimensão relativa das economias do que as taxas de câmbio de mercado. Como dizia John Maynard Keynes, "é melhor estar aproximadamente certo do que exatamente errado".

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